|
O ano em que o Punk explodiu
A quinta-feira é dedicada à imprensa. Numa sala ao fundo da gravadora Abril
Music, em São Paulo, a banda aguarda para aquela
que seria a 33ª entrevista do dia. A minha é marcada
por último, já que a idéia é que seja mais prolongada.
Num sofá de três lugares, os irmãos Fê e Flávio, a cozinha da banda, pedem
pra ver os contatos das fotos que foram tiradas
três dias antes. Yves, sentado em uma poltrona
lateral, reclama da falta de tempo para jogar
futebol. Vai ter Rock e Gol (campeonato
entre artistas promovido pela MTV), e a gente
precisa treinar. Dinho não está na sala
ele é solicitado pra fazer fotos na área
externa da casa. Mas o começo da história é justamente
com os irmãos que dividem o sofá.
Brasília dos anos 70 era apenas uma cidade do interior de Goiás feita capital
numa tentativa de se povoar aquela região do país.
Muitos do personagens principais da história que
traria fama de usina de roqueiros à cidade nem
moravam lá à ocasião. Em 1977, ano em que o punk
explodiu, Fê e Flávio moravam próximo ao olho
do furacão, em uma vila de mil habitantes no interior
da Inglaterra, nas cercanias de Leicester, a 200
km de Londres.
Enquanto as opções da rebeldia juvenil brasileira se limitavam a Raul Seixas,
14 Bis, Terço e Made in Brazil, Fê e Flávio compravam
ingressos para assistir aos shows das bandas-nata
do movimento que ganhava força The Clash,
Buzzcocks, The Stranglers, The Jam, The Damned.
Eu fui o primeiro punk da escola,
orgulha-se Fê, que entre 22h e meia-noite, religiosamente,
ouvia o programa do decano DJ John Peel
Dinho, vestindo uma apropriada camisa dos New York Dolls, a esta altura
já juntara-se ao grupo na entrevista. Na época
de que tratamos, ele morava em Genebra, na Suíça,
e circulava com mais desenvoltura pela praia do
hard rock. Lá eu vi Uriah Heep, Status Quo,
Peter Gabriel, Motörhead e Tubes no auge. Legal
pra caralho. Eu voltei uuuuuaaaaaahhhhh.
Quem ouviu com detalhes o que significava o uuuuuaaaaaahhhhh
era a turma de amigos que deixara em Brasília,
o pessoal da 104 Sul (superquadra onde moravam
os diplomatas). Jovens que em breve fariam parte
da seleção brasileira de rock, como Dado Villa-Lobos,
Herbert Vianna, Bi Ribeiro.
Como Seattle
Falar sobre a cena que se formou naquele final dos 70 ilumina o rosto dos
músicos. É com orgulho que eles traçam um paralelo
à que se formou no final dos 80 em Seattle, nos
EUA. O primeiro ingrediente da receita foi exposto
acima: numa época em que informações não estavam
ao alcance de um mouse, o privilégio que esses
jovens de Brasília tinham em ver a história musical
acontecer in
loco foi essencial. Mas a combustão só foi
possível graças ao famoso nada mais o que
fazer, que garantiu o surgimento do grunge
no extremo Noroeste dos EUA.
É semelhante a Seattle principalmente por não ter se desenvolvido
no pólo. [Brasília] Era longe de São Paulo e Rio, que representavam, vamos dizer,
Nova York e Los Angeles. As pessoas em São Paulo
e no Rio tinham acesso aos discos, mas por que
em Brasília as pessoas se sentiram compelidas
a montar bandas e sair tocando? Acho que isso,
sim, está ligado ao tédio, compara Dinho.
A Escola Americana da cidade foi o primeiro catalisador da cena que se
formava. Lá, em 1978, estudavam Fê, Geraldo, aka
Geruza (irmão de Loro), Philippe Seabra, André
Muller, André Pretórius e Renato Russo. O
Renato tocava baixo, e tudo o que ele queria na
vida era formar uma banda. Em todas as festinhas
que ia, levava chocalho, pandeiro e violão pra
organizar grupos, conta Fê.
Naquela gangue, Renato viu a chance de levar a
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
diante o projeto. Pretórius,
filho do embaixador da África do Sul, era guitarrista,
e Fê, baterista. No mesmo ano, formam o grupo
que dá origem a tudo, o Aborto Elétrico. Mas durante
um bom tempo a única música do repertório da banda
é uma cover dos Ramones Now I Wanna
Sniff Some Glue. Apesar do reduzidíssimo
set-list, os seguidores dos ensaios, Flávio, Gutje,
Ico Ouro Preto e Geruza, se empolgam e um mês
depois também começam a tocar juntos sob o nome
Blitx 64.
São os primeiros punks da cidade, e, como punks legítimos, não sabem muito
bem o que fazer com os instrumentos.
No começo, eram só covers dos Ramones, Sex Pistols e alguns riffs
que ficávamos repetindo. Não tinha vocal. O Renato
começa a cantar em 80, quando o Pretórius vai
servir o exército na África, narra Fê.
Pretórius, que morreria em 1986, vítima de overdose de heroína, ainda participa
do primeiro show da banda, em 11 de janeiro de
80, mas a história do grupo dá uma guinada quando
Renato ganha confiança e começa a compor. Aí surgem
Que País É Esse?, Fátima,
Veraneio Vascaína, Música Urbana,
Tédio e Geração Coca-Cola.
Cafofo
O grupo, ao lado da Blitx 64, vira residente do Cafofo, um bar onde durante
dois meses os conjuntos se apresentavam no porão.
Um dos curiosos que vão a esses shows é Dinho.
Os diplomatas [a turma de Dinho]
descobrem a gente e a gente descobre eles,
conta Fê.
Até que comecem a se apresentar em espaços maiores, como teatros e ginásios
de colégios, corre mais um ano. Nesse meio tempo,
a cena ganha novas bandas, como XXX,
Arte no Escuro, Detrito Federal e Plebe Rude.
Na verdade, era mais fácil encontrar um alienígena zanzando pelas superquadras
do que um jovem que não fosse membro de alguma
banda. Dinho une-se ao Dado e o Reino Animal.
Que teve a quantidade histórica de um show.
E não tinha vocal. A primeira banda punk instrumental
da história, e com teclados, diverte-se.
A entrevista ganha tom de conversa saudosista de bar. Os três membros originais
começam a puxar histórias, como a adesão à turma
daquele que viria a ser o baterista da Legião.
O [Marcelo] Bonfá substituiu o Gutje na Blitx 64. Ele era conhecido como
pilha fraca. Ia cansando no meio da
música, o braço ia ficando duro e diminuía a velocidade,
lembra Fê.
O Loro e o Geruza viravam pra trás e falavam: filho da puta,
toca direito essa porra, completa
Flávio.
Mas a pá de cal no primeiro conjunto punk de Brasília quem joga é Fê. Durante
uma apresentação comemorativa do primeiro ano
da morte de John Lennon, em uma feira de música,
o baterista encana no meio do show que o vocalista
não está nem aí, e taca uma baqueta na cabeça
de Renato.
Ele foi embora, puto, e eu vi a cagada que tinha feito. Fui na casa
dele, ficou tudo bem. Mas o Aborto já tinha perdido
o gás.
Religião Urbana e Capital
Férias de final de ano. Fê e Flávio viajam. Renato, que fica em Brasília,
entra numa viagem de bardo, empunha um violão
Gianinni e começa a se apresentar como Trovador
Solitário. As pessoas aprovam, ele sente
firmeza e ainda faz um último show com o Aborto
Elétrico antes de formar a Legião Urbana com Bonfá.
Até aí havia um legado de músicas do Aborto a
ser dividido.
Demorou pra [Fê e Flávio]
assumirem, pois num primeiro momento não queriam
tocar as músicas do Aborto, conta Dinho.
Os irmãos agregam Loro ao novo projeto e chamam Heloísa pra cantar. Ninguém
consegue explicar o porquê da aquisição.
A gente ensaiava com ela e ninguém ouvia porra nenhuma. Parecia um
puta som. Daí fizemos um show produzido e tal.
Os amigos levaram o gravador. Quando a gente ouviu
causou uma crise. Juntou o Loro, o Fê e eu e falamos:
Isso não dá. Precisamos falar com ela,
diz Flávio. Falar, no caso, foi apontar a direção
da porta da rua.
Aí fizeram uma audição em que o único candidato era eu. A prova foi
Psicopata, lembra Dinho.
Um mês depois, o vocalista é testado no palco da concha acústica da Universidade
de Brasília, à saída do vestibular de 1983, junto
de uma banda batizada em antítese à Plebe Rude,
a Elite Sofisticada.
O Renato [Russo] foi assistir.
Perguntamos o que tinha achado e ele, que não
gostava de elogiar coisas boas, disse:
A Elite Sofisticada foi do caralho. Muito bom.
E o que você achou da gente, Renato?.
A única coisa que ele foi capaz de falar foi:
O lugar do Dinho é o palco, relata Fê.
Em São Paulo
O segundo show da banda foi no Circo Voador, no Rio, em julho de 83. Eles
fechavam a noite, que tinha a Legião Urbana e
Lobão e os Ronaldos.
Headliners de cara?
Que nada. A gente tocava às cinco da manhã, o pior horário,
exime-se Dinho.
A apresentação rende. O colunista Jamari França, do Jornal do Brasil, decreta
que Brasília é o novo celeiro do rock brasileiro.
Isso foi o nosso diploma, pois em Brasília todo mundo cagava um monte.
Se na capital artística do país um crítico como
ele tinha falado que é bom, então é bom. A gente
usa esse texto em todos os releases, afirma
Flávio. Até hoje, brinca Dinho.
Nessa excursão nacional, a terceira parada é o Sesc Pompéia,
em São Paulo, numa noite com a nata do rock paulistano:
Titãs, Ira!, Inocentes, Voluntários da Pátria
e Ultraje a Rigor. Para criar um lance mais abrangente
convidam uma banda do Rio, Brilho, e o Capital,
de Brasília. Fé, Flávio e Dinho se mostram muito
mais à vontade em elogiar os roqueiros paulistanos
do que os conterrâneos.
O Ira! era do caralho. A melhor banda de São Paulo de longe,
concorda Dinho.
Vem o Ira! e tá lá o Edgard [Scandurra],
que já era um guitarrista impressionante. Daí,
Voluntários da Pátria e tá lá o Edgard na guitarra.
Vem o Ultraje e tá lá o Edgar. Daí chega uma hora
do show que a gente olha e tá o Edgard na bateria.
A gente fala: quem é esse cara?
(risos), completa Flávio.
Nessa noite eles percebem também a maior identidade com o rock que era
feito em São Paulo.
A gente achava que o Rio era o túmulo do rock. Barão [Vermelho] era Stones, coisa do passado,
datado; Blitz era rock pero
no mucho, mais performático. A gente era muito
cheio de preconceito. Tudo o que não era pós-punk
a gente descartava, afirma Dinho.
À ocasião a divisão de estilos era bem definida também na cena brasiliense.
Os músicos estavam aprendendo a dominar melhor
os instrumentos e não precisavam se garantir tão
somente nos três acordes. A única a seguir colocando
fichas no punk foi a Plebe Rude. A Legião já se
tornara mais lírica, e o Capital soava diferente,
já que o guitarrista Loro não gostava de distorção.
E a referência já não era mais o punk tradicional,
mas bandas como Talking Heads e Siouxie and the
Banshees.
Dentro desse processo de segmentação, a turma perde o controle.
O que começara com sete, oito pessoas, já havia
se transformado num exército de umas 200. As rusgas
também são aparentes. Amigos, amigos, negócios
à parte.
Quando teve o primeiro show das bandas de Brasília fora da cidade,
da Plebe e Legião, em Patos de Minas [MG],
eu fiquei puto da vida. Tipo: fomos traídos,
confessa Fê.
Teve uma época em que as gravadoras começaram a ligar pras bandas
de lá. Era um período em que a gente ficava direto
na casa do Fê. Um dia a gente não estava e alguém
liga dizendo que é da CBS [atual Sony]: Queremos contratar o Capital. E a gente não
estava. Você imagina: a gente ficou meses ao lado
do telefone esperando, e até hoje não descobriu
exatamente quem foi, mas era alguém da Plebe Rude,
relata Dinho, rindo.
Se eles sentem que rola inveja com o sucesso atual alcançado pelo Capital?
Eles devem achar que a gente não merece. Mas isso não significa nada,
porque se fossem eles a gente também acharia que
não mereceriam, diverte-se Fê.
Sodoma e Gomorra
Chega uma hora em que a cidade fica pequena pra tantas bandas e os garotos
começam a querer viver a saga dos heróis. A primeira
retirante é a Legião, que deixa Brasília em 1984
pra tentar conquistar o Rio. A Plebe Rude segue
o mesmo caminho. O Capital Inicial permanece mais
um tempo na cidade, período em que gravam a primeira
demo-tape, com Leve Desespero, Descendo
o Rio Nilo e Prova.
Os ensaios são diários. Na mesma época o pai de Dinho, casado com a mãe
de Dado Villa-Lobos, deixa a cidade. Os dois meio-irmãos
passam a dividir um apartamento com Tavo (Luís
Otávio, irmão mais velho de Dado) e Pedro Ribeiro,
mano de Bi, dos Paralamas. É a época em que começam
a pegar mais pesado nas drogas.
Antes era só maconha, ácido e cogumelo. No começo mesmo era só maconha
e álcool. Benzina também. Tinha até uma letra
do Renato [Russo]: Não tenho grana nem pra perna [20 cruzeiros] nem pra quina [50
cruzeiros] / Só tenho trinta mangos e vou
comprar benzina, lembra Dinho.
A festa da colheita começava com os primeiros raios de sol logo após a
chuva. A turma em peso matava aula e ia pros pastos
da cidade cavoucar merda de boi zebu atrás de cogumelos. À noite, ninguém chegava
de mãos abanando nas festinhas. Tinha convidado
que levava garrafões de vinho Sangue de Boi, coisa
de cinco litros, lotado de chá alucinógeno.
Quando a gente foi morar sozinho virou Sodoma e Gomorra. Os pais
foram embora, liberou geral. E era o apogeu do
consumo de drogas em Brasília. Foi a época em
que a gente descobriu cocaína. Nossa Senhora,
naquele apartamento..., leva as mãos à cabeça
o vocalista.
No final de 84 a banda assina com a CBS (a mesma do suposto telefonema
da Plebe) e gravam o primeiro compacto, Descendo
o Rio Nilo/Leve Desespero. Os músicos se juntam,
fazem as contas e chegam à conclusão de que armando
ao menos um show por mês conseguiriam se sustentar
fora de Brasília. Juntam as trouxas e se mudam
para o bairro da Bela Vista, próximo ao centro
de São Paulo, e logo o compacto é lançado.
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
>
Só que o que tocava na época
era um som tipo Metrô. Ou seja: existia um formato
de rock que estava vendendo, e a gente não estava
dentro desse formato. O single não estoura e a
gente é congelado lá dentro, narra Fê.
1985 foi uma desgraça, conclui o vocalista.
A situação entre banda e gravadora logo converte para uma guerra de picuinhas.
Executivos começam a reclamar dos tênis que os
músicos usam em programas de TV. A banda, que
ensaiava no porão da casa de Dinho, na Rua Japurá,
segundo o próprio uma podridão, tudo apodrecia
lá dentro, tenta gravar, mas o material
é sistematicamente recusado. Eles passam o ano
inteiro sem coragem para romper o contrato, até
que a Polygram acena com uma oferta.
A foto da assinatura do contrato é no porão, lembra o vocalista.
Música urbana e independência
Só que o mercado é confuso. Quem está no topo é Marcelo Nova com seu Camisa
de Vênus. Passada a febre new-wave e chegado o
boom de Eu Não Matei Joana DArc
e Bete Morreu, ninguém sabe de onde
virá o próximo estouro. Nem mesmo se haverá um
próximo estouro. Assim, os empresários da Polygram
coçam a cabeça, arriscam umas projeções e dizem
que se o disco do Capital, chamado simplesmente
Capital Inicial, vender umas 40 mil
cópias está mais que bom. Mas o álbum se mostra
um bilhete premiado e em três meses vende 220
mil cópias.
O disco é tosco, mal cantado, mas eu gosto. A gente era moleque,
eu tinha 20 anos. Hoje eu vejo que as composições
são boas e o disco é autêntico, mas a execução
e a produção são os grandes empecilhos. Apesar
de não sabermos tocar a gente tira um som, soa
como uma banda, avalia Dinho.
A gravadora mais uma vez dá sorte, escolhendo Música Urbana
como a canção de trabalho, à revelia dos músicos,
e esta estoura. Só que se o trabalho era bem feito
pelo pessoal da Polygram, internamente a estrutura
é amadora a banda ainda era empresariada
na base da brodagem. Acabam fazendo poucos shows
e não aproveitam o potencial de crescimento.
A gente não sabia nosso tamanho
e não ganhava grana. Fazia quatro shows por mês,
ganhava pra sobreviver e estava bom, conta
Flávio.
O contrato previa um disco por ano. Claro que diante do sucesso do debute
eles poderiam renegociar e protelar um pouco o
lançamento do álbum seguinte, mas a idéia é mostrar
gás, vitalidade. 1986 passa voando, e em 1987
eles decidem encarar novamente o estúdio.
A gente não soube lidar com a gravadora. Não sabia que podia dizer:
Não, pera aí, ensaia um mea-culpa
o vocalista.
O resultado Independência
é uma colagem de poucas canções novas e
muito do que havia sobrado do primeiro disco.
Mas novamente a música que abre o disco explode.
Independência é a segunda música mais tocada de 1987.
A primeira é Como Uma Deusa (da cantora
Rosana), orgulha-se Dinho.
Só que os erros não param por aí. Eles resolvem incorporar à banda Bozo
Barretti nos teclados, que foi o arranjador do
primeiro disco. Mas Bozo é um músico de verdade,
e começa a carregar o som da banda no seu instrumento
e em arranjos de gosto questionável.
Ele não tinha nada a ver com a banda, resume Flávio.
A bomba que eles seguravam desde o início das gravações de Independência acaba explodindo quando
depois de um ano se sentem obrigados a fazer o
terceiro disco. Se no primeiro trabalho eles têm
um rico manancial, músicas compostas durante anos,
e no segundo ainda conseguem usar muito disso,
no terceiro, Você Não Precisa Entender, a fonte seca.
É o pior disco do Capital. Em vez de tentarmos consertar, nós lavamos
as mãos. Nossa atitude foi: Foda-se.
Deixamos nas mãos dos produtores, e o Bozo faz
uns arranjos hor-ro-ro-sos. As canções até podiam
ser boas, mas fodeu geral. Esse disco é a maior
cagada que a gente fez, avalia o vocalista.
Eu gravei o disco bêbado. O Luís Caldas estava gravando no estúdio
B. Eu cheguei lá pra ver, falei: E aí, Luís,
tudo bom?. Sentei no sofá do estúdio e dormi,
cara. Quer dizer: a banda gravando num estúdio,
eu fui pro estúdio do outro cara e dormi. Quando
acordo está tudo apagado. Falei: Onde é
que estou, conta Fê.
Eu nem vi o disco. Acabou a gravação, eu peguei um avião e fui embora.
Estava todo mundo cheirado, conclui Dinho.
O Primeiro Fim
Tão desencanados que demoram um ano pra perceber o desastre. Para o trabalho
seguinte, Todos os Lados, resolvem reduzir em
muito a participação dos teclados (leia-se Bozo)
e carregar nas guitarras. E nesse quarto disco
começa também a parceria com o compositor Alvin
L, que virou tão importante quanto um quinto músico
na banda. Basta olhar os créditos do disco novo
das 14 canções, ele assina 10, a maioria
em parceria com Dinho.
Todos os Lados marca o começo do envolvimento
com Alvin. E já é uma avalanche de coisas que
a gente usou dele, conta Dinho.
O disco traz boas canções como Belos e Malditos, Mickey
Mouse em Moscou e Mambo Club.
Mas a merda estava feita e era tarde pra
consertar, avalia o vocalista.
A primeira estocada vem com a ascensão do sertanejo-chic, que amarra uma
âncora à perna da cena rock brasileira. Mas o
gênero ainda dá sinal de vida com a explosão do
grunge em 91, época em que o Capital grava Eletricidade, disco em que o grupo consegue retomar o equilíbrio nas
composições. O Passageiro (versão
para The Passenger de Iggy Pop) e
Todas as Noites tocam bastante, só
que o mundo era dominado por Kurt Cobain e asseclas.
Esse rock mais pesado causa uma crise de identidade na gente. Eu
comecei a tentar tocar com dois bumbos, mas nem
sabia tocar com um bumbo. No Rock in Rio eu não
conseguia tocar Psicopata de tão inseguro
que estava, admite Fê.
É o disco que marca a mudança de gravadora vão para a BMG. Mas o
clima que não era nada bom só piora quando começam
a querer interferir no trabalho da banda. Trombada
de frente, e a BMG se recusa a pagar a produção
de clipes. Passageiro e Kamicase
são rodados com dinheiro do bolso dos músicos.
Os caras não fizeram porra nenhuma,
revolta-se Dinho.
Simplesmente a banda parou de existir pra gravadora, conclui
Fê.
O círculo criado é destrutivo. A estrutura começa a piorar e o único fator
em ascensão são as discussões internas. Até que
chegam mamados para uma apresentação no Vale do
Anhangabaú, centro de São Paulo.
Nós fizemos um show péssimo.
O Bozo saiu do palco puto da vida, xingando a
banda, falando que os amigos tinham ido assistir,
que era uma vergonha. E disse: Tô fora,
conta Dinho.
A gente gostou da idéia, admite Flávio.
Acho que a gente tava querendo tirar o cara fazia tempo e não sabia
como, conclui o vocalista.
Com a saída de Bozo o som ganha vigor, fica mais...digamos... rock, como
deveria. Eles ainda fazem um show com o Skank,
então em começo de carreira, em Belo Horizonte,
mas Dinho resolve seguir a estrada de Bozo.
Foi uma saída profissional. Nós cumprimos a agenda, que tinha ainda
três meses. E em setembro de 93 a banda
original racha.
Drogas, Sexo e Bagaço
Dinho sai e a gravadora rasga o contrato. Dinho resolve fazer um disco
solo, Vertigo, e os integrantes originais
do grupo entendem o recado. Contratam Murilo Lima,
da banda Rúcula, e gravam Rua 47. A estrutura passa a ser familiar.
Quem empresaria o conjunto são as ex-mulheres
de Fê e Loro. O disco não toca nas rádios e a
aceitação é baixa.
A gente continua tocando pelo sucesso do Capital nos anos 80,
admite Fê.
No começo ainda há um apelo, mas depois de um tempo as pessoas começam
a se encher, e os convites para shows, rarear.
Cada vez vamos perdendo mais
espaço. Em 96 a gente resolve gravar o Ao
Vivo pra tentar mostrar pro público as músicas
do Capital com um novo cantor, conta Fê.
Mas a banda não tem música nova e vai diminuindo
o interesse. Cada vez menos pessoas aparecem nos
shows, completa Flávio.
Até que em 97 Loro decide ser o empresário da banda.
Hahahahahahahahahahaha, não resiste Dinho.
Ele transforma o sótão da loja de móveis da mãe de sua ex-mulher em escritório,
emposta a voz e começa a fazer ligações se apresentando
com outro nome e oferecendo shows da banda. O
Capital faz seis apresentações no ano inteiro.
Loro decide então abandonar o barco e o conjunto
faz alguns shows com Yves na guitarra.
Já pelo lado de Dinho a fase é mais punk...não musicalmente.
Após Vertigo, ele começa a trabalhar
com o produtor iugoslavo Mitar Subotic, o Suba
(falecido em um incêndio em 1999), lança um bom
disco com forte influência eletrônica que leva
o próprio nome, Dinho Ouro Preto, mas o resultado é
nulo.
Tive a sorte de trabalhar com
o Suba, que hoje é uma entidade, mas o disco não
dá em absolutamente nada. Em 97 eu paro tudo,
resume.
Não é bem assim.
O disco é resultado direto do período techno de Dinho. Uma época em que,
perdido, começa a viver de baladas. A porta
da minha casa era aberta. Entrava quem quisesse.
Dormia gente na sala. Neguinho chegava louco de
ecstasy na varanda e ficava gritando: uuuuaaaahhhh.
Era
party until I die. Eu dormia com o sol nascendo, acordava e
ia pra balada, e era bem barra-pesada, relembra.
A grana ganha na época de auge começa a minguar e, pra se sustentar, ele
se arrisca em uns bicos de tradutor pra empresas
como HBO e Gazeta Mercantil.
Ninguém mais sabia quem eu era. Era totalmente anônimo, conta.
E a grana acaba de vez quando numa dessas baladas um amigo de um amigo
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
vasculha o apartamento e encontra o que restava
do testamento do Capital, coisa de US$ 6 mil.
Estava todo mundo doidão. Quando acordei
o cara tinha saído e levado toda a grana,
conta.
O tapa definitivo foi quando o vocalista teve a notícia de que poderia
ter contraído o vírus HIV.
Isso foi horrível. Eu fiquei com uma menina e um ano depois um amigo
me liga e diz que ela estava doente. Aí fiz todos
os testes, e está tudo bem. Mas foi um susto,
exorciza.
Ele saiu do local onde havia pegado o teste junto de uma amiga judia e
tentou entrar em uma sinagoga, pra...sei lá...rezar
e agradecer. Foi barrado. Daí correu até a primeira
igreja no caminho e decidiu se redimir. (Não,
ele não virou evangélico.)
Esse perrengue todo que a gente passou mostra o quanto tudo é efêmero.
Se você vacilar, vira fumaça. É bom você saber
que está pisando em ovos e que pode cagar tudo.
Você começa a tratar seus discos com outra perspectiva,
não se deixa levar por viagens ególatras, pois
sabe que pode ser esquecido amanhã, avalia
o vocalista.
A Banda está na Pindaíba
Essa época pra gente foi um sufoco, de grana mesmo, bicho. E também
de não saber o que fazer, afirma Flávio.
Um encontro casual acabou servindo pra começar a quebrar o gelo. Fê estava
na casa noturna B.A.S.E., em São Paulo, com Robério
Santana, guitarrista do Camisa de Vênus, quando
cruzaram com Dinho.
Há quanto tempo você não fala com o Dinho?, perguntou Robério.
Quatro anos, respondeu o baterista.
E você não acha isso uma babaquice?
Fê concordou. Cutucou Dinho: Legal aí? No
hard feelings.
E também teve o estímulo do Melhor
de
[coletânea do grupo], que tinha vendido
já uns 100 mil discos, completa Dinho.
Os quatro marcam de se reunir no bar Supremo, em São Paulo, e surge a idéia
de se fazer alguns shows em comemoração aos 15
anos da banda. Depois, cada um retomaria sua vida.
Era meio assim: se é pra acabar, vamos acabar direito, conta
Flávio.
O Renato [Russo] tinha
morrido, a Legião, acabado, a Plebe não existia
mais, o Capital estava cada um pra um lado. Parecia
um final melancólico pra algo que tinha sido tão
importante, afirma Dinho.
A partir daí, Paulo Coelho diria que os astros conspiraram a favor
dada a velocidade do encadeamento de fatos.
Em março de 98 eles começam a ensaiar e fazem o primeiro show em abril,
em Guarapuava, no Paraná. Um mês depois, acertam
com a Abril Music são os primeiros contratados
da gravadora. Telefonam para David Z, produtor
de Billy Idol e Prince, e vão gravar em Nashville,
nos EUA. Uma frescura que os próprios admitem
pouco resultado prático. Mas aproveitam pra garantir
a primeira e única apresentação internacional
da banda, em um clube para brasileiros em Fort
Lauderdale, na Flórida.
Retornam com Atrás dos Olhos,
e logo O Mundo começa a tocar. No
final do ano conseguem se apresentar na casa de
shows paulistana Palace (atual Directv Music Hall).
Nem na época do auge a gente tinha tocado lá. Tinha mil e tantas
pessoas, conta Dinho.
Alguns shows são cancelados por falta de pagantes, mas a banda consegue
atrair mais público e atenção do que imaginava.
A gente fala: Caralho, que porra é essa?, resume
Fê.
Em 1999 o grupo consegue agendar 70 shows, só que o inusitado não é a diversidade
de lugares em que tocam, mas a faixa etária do
público. Uma luz acende na cabeça dos músicos,
e eles começam a arquitetar um caminho para arrebanhar
essa legião de adolescentes. A primeira idéia
é fazer um disco ao vivo, que serviria como um
cartão de visitas à garotada dos velhos sucessos
do conjunto. Mas a única experiência de gravação
de concerto da banda não tinha sido lá das melhores,
e logo, o projeto ganha força no formato acústico.
O Capital é a menor banda que gravou um acústico. É diferente de
uma banda consagrada que as pessoas vão comprar
pra ouvir as versões acústicas das músicas que
conhecem, defende-se Flávio.
O Atrás dos Olhos foi ingrediente
fundamental, porque não voltamos pensando em reaproveitar
material antigo. Nós nos dispusemos a voltar pra
guerrilha, sem disco, gravamos um disco e depois
o Acústico, completa Dinho.
A conversa, que já durava duas horas e meia, é interrompida pela assessora
de imprensa da Abril Music, Simone Catto. A banda
tem que viajar em pouco menos de uma hora. Ela
percebe que estamos já perto do ano 2000 e sugere
que finalizemos por telefone.
Não, uma coisa assim tem que ser pessoalmente, recusa Dinho.
E marcamos para fechar o bate-papo dali a cinco
dias.
A segunda explosão
No estúdio fotográfico onde haviam acabado de posar para um material de
divulgação, a banda mais uma vez se reúne em volta
de uma mesa pra retomar a trajetória. A conversa
ganha ar um pouco mais formal, já que invadimos
terreno amplamente pisado pelos músicos em entrevistas
nos últimos dias os anos de ouro do Capital
após a volta. Mesmo assim é a época de fatos importantes,
como a saída definitiva de Loro da banda. E mais
teorias sobre o sucesso de Acústico.
Com o disco, o Capital alcançou números inimagináveis pra uma banda que
figurava no cenário há mais de década e meia.
Em seis meses, venderam 300 mil cópias. Vem o
Rock in Rio e a banda consegue deixar o palco
consagrada pelo público na noite mais concorrida
do festival, quando abrem para uma unanimidade
entre os integrantes, Red Hot Chili Peppers. Um
levantamento de público contabilizou que a maior
reunião de pessoas durante o festival aconteceu
justamente
durante a apresentação de Dinho e Cia.
E Natasha [música
que tocou incessantemente em 2001] aconteceu
ali, contextualiza o vocalista.
Um dos fatores que garantiram o êxito do álbum foi a boa escolha das músicas,
já que as que mais tocaram nem foram as antigas,
mas composições novas, ou do Capital 2 (como Dinho
se refere à banda de 98 pra cá), como as inéditas
Tudo que Vai e Natasha.
E o Rock in Rio serviu para reforçar em um ano
o fôlego do disco. Em meados de 2002, Acústico
bate em um milhão de cópias.
Outros discos recentes que chegaram a um milhão conseguiram com uma
musica só, como a Marisa Monte com Amor
I Love You. A gente levou seis músicas,
dois anos e 300 shows nesse período para conseguir,
minimiza o vocalista. No meio tempo, pra não quebrar
a tradição, mais um pau.
Em novembro, no auge do novo sucesso da banda, Loro desce do palco do estádio
Gigantinho, em Porto Alegre, e diz as palavras
mágicas: Tô fora.
Quando o Loro está feliz, é a pessoa mais bacana do mundo. Quando
está nervoso, é o cara mais imprevisível. E ele
vinha bem nervoso. Isso começou a se refletir
de maneira perigosa. Tinha momento dos shows em
que ele largava a guitarra de lado, conta
Fê.
Ele estava estressado. Acho que pra ele acabou se tornando um problema
o sucesso do Capital. Ele não segurou, cara. Acho
que tem gente que não nasceu pra trabalhar tanto,
conclui Dinho.
Um amigo do guitarrista confidencia que é mesmo por aí. Loro estava de
saco cheio da agenda da banda, achava que estavam
se expondo e se vendendo demais, e
também não tinha mais gás pra ficar constantemente
em turnê e longe do filho.
A demissão do guitarrista aconteceu numa quarta-feira. No final de semana
a banda tinha que cumprir agenda. Foi um
desastre. Passamos raspando, lembra Dinho.
Yves Passarell é chamado às pressas para fazer o resto dos shows em dezembro.
A banda sai de férias e conta com uma reconsideração
do músico no retorno. Em fevereiro ele mantém
firme a posição de não mais dividir o palco com
a banda. Yves se oferece pra viajar pra Brasília
e passar as novas músicas para o guitarrista e
Loro novamente recusa. Yves é efetivado como quarto
membro.
A saída do Loro foi bem menos traumático do que se esperava. A atitude
dele não foi beligerante, e foi fácil pelo fato
de o Yves nos conhecer há dez anos, avalia
Dinho.
Acho que foi bom pra todo mundo, conclui Flávio.
A mudança é nítida no disco novo (leia análise ao lado).
Se eu fosse caracterizar o Capital 1 [a fase de 83 a 93] eu caracterizaria pela irregularidade. Acho que
tem grandes canções ao lado de outras mais ou
menos. E na volta a gente conseguiu se livrar
disso, foram discos mais homogêneos. Tem uns discos
do Capital 1 que eu vou ouvindo e chega uma música
que eu penso: Ugh, caralho, como é que isso
passou?. O Capital da volta eu ouço tudo
com prazer, analisa o vocalista.
A primeira música a tocar é À Sua Maneira, uma versão de De
Musica Ligera, dos argentinos Soda Stereo.
Ela foi escolhida numa votação. Participaram,
além de nós, umas 30 pessoas da gravadora,
explica Flávio.
Segundo Leo Gomes, baixista e vocalista do conjunto (ainda sem nome) que
Loro formou em Brasília após sair da banda (segundo
ele, um pop-rock mais porrada que o Capital),
o guitarrista aprovou a nova fase. Eu estava
ao lado dele na primeira vez que ouviu, e ele
falou que tinha gostado, afirma.
O músico, que capotou com uma de suas Harley Davidson pouco antes do lançamento
de Rosas e Vinho Tinto, quando quebrou
clavícula e omoplata, diz não ter mágoas dos ex-companheiros,
mas prefere não falar sobre o Capital.
Já para Dinho, é o assunto predileto. Do alto da montanha de discos vendidos
e da mais que concorrida agenda de shows, o vocalista
se sente à vontade pra dar lições até nos contemporâneos
de fora.
Todo mundo dos anos 80 parece que reconsiderou o que fazia e perdeu
contato com o planeta rocknroll. Parece
um complexo de querer ser adulto. Eu amava Police
e acho uma bosta o que o Sting faz agora. Eu adorava
Talking Heads e acho uma bosta o David Byrne,
uma decepção tremenda. Vai saber.
CRÍTICA DA REVISTA AO NOVO CD
Rosas e Vinho Tinto - Nota:
8
Coloco o disco pra tocar na redação, sem dizer que banda é. A primeira
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
reação: O que é isso? Parece AC/DC.
A reação é justificada. 220 Volts,
que abre Rosas e Vinho Tinto, 10o
disco da carreira do Capital, é um cartão de visitas
de Yves Passarell, que assumiu as seis cordas
no lugar de Loro Jones. É quase uma citação
de RocknRoll Damnation,
do AC/DC, entrega Dinho. A troca serviu
para sanar um dos pontos fracos da banda, o timbre
de guitarras. Com Yves o som desce melhor, ganhou
corpo e pegada.
Mas a canção não é representativa do restante do ábum. Se fosse pra resumir
Rosas e Vinho Tinto, diria que é um disco de belas
canções, resultado de uma banda que sabe compor
(apesar de que a maioria das músicas é assinada
pela dupla Dinho-Alvin L). São assim Enquanto
Eu Falo, Quatro Vezes Você,
Pra Ninguém Algum Dia
e Mais. E também reflexo do que os
músicos mais ouvem atualmente; bandas como Beatles,
R.E.M., U2, Travis e Cosmic Rough Riders, que
carregam nos violões. Há espaço até para uma referência
bem contemporânea na guitarra de introdução da,
surpreendentemente punk, música que dá nome ao
disco. A idéia foi essa, uma citação aos
Strokes, admite Dinho.
Comparado a Atrás dos Olhos, o trabalho anterior
de estúdio da banda, Rosas... dá um passo à frente.
Se encaixado dentro da obra da banda, corre um
belo risco de ficar no topo (LCP)
|